Vaginose citolítica: quando o corrimento não é candidíase
Parece candidíase, o antifúngico não resolve, e o corrimento volta todo mês: pode ser vaginose citolítica. Você repete o creme, melhora por alguns dias, e logo está tudo de volta. Não, você não está exagerando. E o problema pode nunca ter sido fungo.

Vaginose citolítica é uma condição em que os lactobacilos (principalmente os Lactobacillus crispatus), as bactérias que normalmente protegem a vagina, se multiplicam além da conta e passam a romper as células da parede vaginal. Esse rompimento celular, a citólise, é o que dá nome à condição e provoca sintomas quase idênticos aos de uma candidíase.
Foi descrita pela primeira vez em 1991, pelos pesquisadores Cibley e Cibley, e até hoje é pouco reconhecida no consultório. Por isso, muita mulher passa anos tratando uma candidíase que nunca teve.
O que causa a vaginose citolítica
A vaginose citolítica acontece quando os lactobacilos, que deveriam proteger, crescem em excesso e acidificam demais a vagina. Em equilíbrio, essas bactérias produzem ácido lático e mantêm o pH vaginal entre 3,8 e 4,5, uma acidez que segura microrganismos indesejados. Quando se multiplicam além da conta, o pH cai abaixo desse patamar, a acidez agride o epitélio, e as células da parede vaginal se rompem.
É essa quebra celular que gera a irritação, a coceira e o corrimento. O mecanismo é o oposto do que costumamos associar a um problema vaginal: aqui, não falta bactéria boa, sobra.
Por que os sintomas pioram antes da menstruação
Os sintomas costumam piorar na fase lútea, a segunda metade do ciclo, entre a ovulação e a menstruação. É quando o estrogênio favorece o acúmulo de glicogênio nas células vaginais, o alimento dos lactobacilos, o que acelera a multiplicação deles. Se o seu incômodo tem hora marcada no calendário, isso não é coincidência, é pista.
Quais são os sintomas da vaginose citolítica
Os sintomas da vaginose citolítica se confundem com os de uma infecção por fungo, e é justamente aí que mora a confusão. Os mais comuns são:
• Corrimento branco, espesso ou aquoso, muitas vezes com aparência de leite talhado, parecido com o da candidíase
• Coceira ou ardência na vagina e na vulva
• Desconforto ou dor durante a relação sexual
• Ardência ou desconforto ao urinar
Diferente da vaginose bacteriana, aqui não costuma haver odor forte. E, diferente da candidíase, o antifúngico não melhora o quadro de forma duradoura. Quando o tratamento para fungo falha repetidamente, esse é um dos sinais de que pode haver outra coisa acontecendo.
Quem tem mais chance de desenvolver
A vaginose citolítica afeta principalmente mulheres em idade reprodutiva e está associada a momentos de estrogênio mais alto, como a gravidez, o uso de terapia hormonal e a própria fase lútea do ciclo. Quadros de diabetes e glicemia elevada também aparecem entre os fatores associados, porque o excesso de açúcar favorece a proliferação dos lactobacilos.
Há um fator contraintuitivo que merece atenção: o uso de probióticos com lactobacilos. Como a proposta desses suplementos é justamente aumentar os lactobacilos, em quem já tem excesso eles podem piorar o quadro. É um lembrete de que suplementar a probiótico sem saber o que ela já tem pode sair pela culatra.
Sobre frequência: segundo revisão publicada na revista PLOS One em 2023, a vaginose citolítica aparece em cerca de 5% das mulheres com sintomas vaginais e chega a 22% entre as que têm sintomas recorrentes. Não é a causa mais comum de corrimento, mas está longe de ser rara justamente no grupo que mais sofre com sintomas que voltam.
Vaginose citolítica ou candidíase: como diferenciar
A diferença não dá para ver a olho nu, e é por isso que tanta mulher trata candidíase que nunca teve. As duas cursam com corrimento branco, coceira e ardência. O que separa uma da outra está no microscópio e no pH, não na aparência do corrimento.
O microbioma vaginal é o conjunto de microrganismos que habitam a vagina, dominado, em equilíbrio, pelos lactobacilos. Na candidíase, o problema é o crescimento de um fungo (Candida). Na vaginose citolítica, o problema é o excesso das próprias bactérias protetoras. São causas opostas, e é por isso que o mesmo tratamento não serve para as duas.
Repetir antifúngico sem melhora é o sinal clássico. Se o creme não resolve, o próximo passo não é mais creme: é investigar o que está de fato acontecendo.
Como se faz o diagnóstico
O diagnóstico da vaginose citolítica é de exclusão: o médico precisa primeiro descartar candidíase, vaginose bacteriana e outras causas de sintomas parecidos. A confirmação vem da análise do conteúdo vaginal por análise biomolecular ou microscoscópica.
Nessas análises, procuram os sinais descritos por Cibley: pH vaginal entre 3,5 e 4,5, abundância de lactobacilos, poucas células de defesa, ausência de fungos e de outras bactérias causadoras, ou até sinais de citólise, como núcleos celulares nus, soltos, resultado das células que se romperam. O que fecha o raciocínio é o conjunto e não um sintoma isolado.
Por ser pouco conhecida, a vaginose citolítica costuma ser lembrada só depois de vários tratamentos que não funcionaram. Vale procurar um profissional familiarizado com o quadro e, importante, não se auto diagnosticar: os sintomas se sobrepõem a condições que pedem condutas diferentes.
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Como é o tratamento da vaginose citolítica
Não existe tratamento de vaginose citolítica para fazer por conta própria. A conduta é sempre médica, e há uma razão concreta para isso: o tratamento descrito na literatura funciona reduzindo os lactobacilos, o contrário do que se recomenda para a maioria dos problemas vaginais. Feito sem confirmação, pode desequilibrar a flora e abrir espaço para uma vaginose bacteriana.
O que a literatura descreve, e que só o seu médico pode indicar, envolve alcalinizar o ambiente vaginal, classicamente com bicarbonato de sódio, e, em alguns casos, suspender temporariamente probióticos e produtos que acidificam ou reforçam os lactobacilos. Nada disso deve ser iniciado com base em suspeita própria. O ponto aqui não é a receita, é entender por que investigar antes de tratar muda o resultado.
Corrimento que volta pede investigação, não repetição
Um corrimento que insiste em voltar raramente é só corrimento. A vaginose citolítica é um dos motivos pelos quais o incômodo reaparece mesmo depois de tratado, e é um bom exemplo de por que o mesmo remédio, repetido, nem sempre é a resposta. Entender o que domina o seu microbioma é o que permite tratar a causa, não a fumaça.
Perguntas frequentes
Vaginose citolítica é grave?
A vaginose citolítica não é uma condição perigosa nem se transmite sexualmente. O incômodo é real e pode afetar bastante a qualidade de vida, mas não traz risco à saúde como uma infecção não tratada traria. O maior problema costuma ser o tempo perdido com diagnósticos errados e tratamentos que não resolvem.
Vaginose citolítica tem cura?
A vaginose citolítica costuma responder bem quando é corretamente identificada e conduzida por um médico, com melhora ou resolução dos sintomas. Como o quadro se relaciona ao equilíbrio da flora e a fatores como o ciclo hormonal, pode voltar em algumas mulheres, o que reforça a importância do acompanhamento em vez da automedicação.
Probiótico pode piorar a vaginose citolítica?
Sim, pode. Como os probióticos vaginais costumam conter lactobacilos, e a vaginose citolítica é justamente um excesso desses lactobacilos, o suplemento pode intensificar o quadro em quem já tem a condição. Por isso não se deve suplementar a flora sem saber o que ela já apresenta, e qualquer ajuste deve ser conversado com o médico.
Dá para diferenciar de candidíase em casa?
Não com segurança. Os sintomas de vaginose citolítica e candidíase se sobrepõem quase totalmente, e a diferença depende de exame de microscópio e da medida do pH vaginal. O sinal que a leitora pode observar é indireto: quando o tratamento para fungo não resolve e o corrimento continua voltando, vale procurar avaliação para investigar outras causas.
Antes de repetir o próximo antifúngico, vale entender o que está de fato acontecendo na sua flora. Conheça o Teste See Me de microbioma vaginal em seeme.life e leve informação, não suposição, para a sua próxima consulta.
Referências Bibliográficas
1. Cibley LJ, Cibley LJ. Cytolytic vaginosis. Am J Obstet Gynecol. 1991;165(4 Pt 2):1245-1249.
2. Suresh A, Rajesh A, Bhat RM, Rai Y. Cytolytic vaginosis: A review. Indian J Sex Transm Dis AIDS. 2009;30(1):48-50. doi:10.4103/0253-7184.55490.
3. Voytik M, Nyirjesy P. Cytolytic Vaginosis: a Critical Appraisal of a Controversial Condition. Curr Infect Dis Rep. 2020;22(10):26. doi:10.1007/s11908-020-00735-w.
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5. Kraut R, Diaz Carvallo F, Golonka R, Campbell SM, Rehmani A, Babenko O, Lee MC, Vieira-Baptista P. Scoping review of cytolytic vaginosis literature. PLoS One. 2023;18(1):e0280954. doi:10.1371/journal.pone.0280954. Cientificamente escrito por Stephani Caser, médica (CRM-SP 194.359)
Revisado por Dr. Alexandre Luís, médico (CRM-SP 97.838)
Material educativo, não substitui consulta nem diagnóstico individual.




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