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Câncer de garganta por HPV: por que atinge mais homens

há 2 dias
9 min de leitura

Você marcou o preventivo esse ano, mas ele não marcou nada, e não é por descuido: para o tumor que mais cresce entre os cânceres causados pelo mesmo vírus, não existe exame de rastreamento para ele marcar. Em nenhum lugar do mundo.

O câncer de garganta por HPV é o tumor que se desenvolve na orofaringe (a região das amígdalas, da base da língua e do palato mole) a partir de uma infecção persistente pelo papilomavírus humano, com predomínio do tipo 16. É o mesmo vírus do câncer do colo do útero, no mesmo corpo, porém, em outro endereço.

A diferença entre os dois não está no vírus. Está em quem tem exame para fazer.



imagem da cabeça e pescoço do corpo humano mostrando partes do corpo que o HPV habita além do colo do útero


O tumor de garganta ultrapassou o de colo do útero nos Estados Unidos

O ano da virada foi 2015, nos Estados Unidos. Segundo o relatório do CDC sobre tendências dos cânceres associados ao HPV entre 1999 e 2015, foram registrados 18.917 casos de câncer de orofaringe contra 11.788 de colo do útero naquele ano. O tumor de garganta passou a ser o câncer associado ao HPV mais frequente do país.

Dos 18.917 casos de orofaringe, 15.479 ocorreram em homens, ou seja, 82%.

As duas curvas caminharam em direções opostas no período. A incidência de câncer do colo do útero caiu 1,6% ao ano, resultado direto de décadas de rastreamento organizado. A de orofaringe subiu 2,7% ao ano entre os homens e 0,8% entre as mulheres, sem nenhum rastreamento para conter.

Vale dizer com precisão o que esse dado é e o que ele não é: ele descreve os Estados Unidos, não o Brasil. A proporção de tumores de orofaringe atribuíveis ao HPV varia muito entre regiões, e é maior justamente onde o tabagismo caiu mais. Uma revisão sistemática com metanálise publicada na Clinical Oral Investigations em 2023 encontrou prevalência global agrupada de HPV de 42% nos tumores de orofaringe, com os maiores percentuais na América do Norte, no Norte da Europa e na Oceania. Nesses tumores HPV positivos, o tipo 16 respondeu por 89% dos casos.

Se você quiser entender antes por que o rastreamento do colo do útero mudou no Brasil, comece por DNA-HPV ou Papanicolau: o que muda no rastreamento.

No Brasil, oito em cada dez mortes por câncer de orofaringe são de homens

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica sobre o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde contabilizou 11.239 mortes por câncer de orofaringe no país entre 2020 e 2024. Dessas, 9.408 foram de homens e 1.831 de mulheres, uma razão de 5,1 homens para cada mulher.

O mesmo levantamento mostra que 37,6% dessas mortes ocorreram antes dos 60 anos, e que 61,2% aconteceram entre pessoas com até sete anos de estudo. É um tumor que atinge homem em idade produtiva e concentra desfecho ruim na parte mais vulnerável da população.

O HPV não explica sozinho essa diferença, e isso importa

Aqui entra a honestidade que o tema exige. No Brasil, o tabaco e o álcool continuam sendo os principais fatores de risco do câncer de orofaringe, e eles explicam a maior parte da diferença histórica entre homens e mulheres. A participação do HPV é crescente, não dominante, e se concentra em um perfil específico: homens mais jovens, entre 40 e 60 anos, muitos sem histórico de tabagismo.

Ou seja, existem dois cânceres de garganta convivendo na mesma estatística. Um é o clássico, de fumante e etilista, que vem caindo onde o cigarro caiu. O outro é o de HPV, que vem subindo. Tratar os dois como se fossem um só é o erro que faz manchete e atrapalha a compreensão.

Câncer de orofaringe não tem rastreamento em nenhum país

Rastreamento é o exame feito em quem não tem nenhum sintoma, com o objetivo de encontrar a doença antes que ela dê sinal. É o que o preventivo faz pelo colo do útero e o que a mamografia faz pela mama.

Para o câncer de orofaringe, isso não existe. O National Cancer Institute afirma que não há testes de rastreamento padronizados ou de rotina para os cânceres de cavidade oral e de nasofaringe, e que nenhum estudo demonstrou que rastrear reduza o risco de morrer por esses tumores. A U.S. Preventive Services Task Force chegou à mesma conclusão ao classificar o rastreamento de câncer oral em adultos assintomáticos com a nota I, de evidência insuficiente para pesar benefícios contra danos.

Não é falta de tecnologia. É que ainda não se demonstrou que encontrar mais cedo, nesse sítio, salva mais vidas.

Existe pesquisa sobre detecção de HPV oral por bochecho e por saliva, e ela é promissora, mas não virou exame de rastreamento validado em lugar nenhum. Uma revisão sistemática publicada na BMC Cancer em 2025 encontrou prevalência de HPV oral entre 0,67% e 11,89% na população geral, mais frequente em homens do que em mulheres, com HPV de alto risco entre 0,5% e 4,7%. Detectar o vírus na boca de uma pessoa saudável, hoje, não diz o que fazer em seguida. E exame que não muda conduta não é rastreamento, é ansiedade com nome técnico.

É por isso que mais de 80% dos pacientes com câncer de orofaringe chegam ao diagnóstico em estágio avançado, como registra o artigo sobre infecção por HPV e controle do câncer no Brasil publicado na Revista Brasileira de Cancerologia, do INCA, em 2025. Sem rastreio, o que traz o paciente ao consultório é o sintoma. E o sintoma já é a doença instalada.

A vacina é hoje a única prevenção primária com evidência

Sem exame para encontrar cedo, a prevenção precisa acontecer antes. A vacina contra o HPV é a ferramenta que existe para isso.

No Brasil, o esquema de dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos foi adotado em 2024. Segundo o Ministério da Saúde, a cobertura vacinal contra o HPV em 2024 chegou a 82,83% entre as meninas e 67,26% entre os meninos, contra 78,42% e 45,46% em 2022. Os meninos avançaram muito e ainda estão quinze pontos atrás.

Sobre o efeito específico na boca e na garganta, o registro precisa ser exato. Uma revisão sistemática publicada na BMC Cancer em 2026, que reuniu nove estudos observacionais com programas de vacinação para ambos os sexos, encontrou prevalência menor de HPV oral dos tipos vacinais entre pessoas vacinadas, com reduções relativas de 57,5% a 93,2% e média de 78,5%. O desfecho medido nesses estudos foi a infecção oral, que é o passo anterior, e não o câncer. A evidência de que a vacina previne a infecção que causa o tumor é sólida. A evidência direta sobre redução de casos de câncer de orofaringe ainda está sendo construída, porque esse tumor leva décadas para aparecer.

Quem tem mais de 14 anos e não se vacinou pelo calendário deve checar as regras vigentes de resgate vacinal na unidade básica de saúde, porque as faixas de repescagem mudam por portaria e por estado.

O que dá para rastrear é o colo do útero, e isso é com você


Aqui está a assimetria inteira do problema, em duas frases. Não existe exame de rastreamento para o câncer de garganta causado pelo HPV. Existe, e está melhor do que nunca, para o câncer do colo do útero causado pelo mesmo vírus.


Desde 2025, o Ministério da Saúde adota o teste de DNA-HPV como exame primário de rastreamento do câncer do colo do útero, no lugar do Papanicolau, por ser mais sensível, conforme as Diretrizes do Ministério da Saúde e do INCA. A diferença entre os dois métodos é de natureza, não de grau: o Papanicolau é citologia, ele procura a célula já alterada pela infecção; o teste de DNA-HPV é biologia molecular, ele identifica o material genético do vírus de alto risco e o genotipa antes de existir alteração celular. A microscopia mostra que há alteração. O exame molecular mostra qual é o agente que a causou.


Um esclarecimento necessário, e ele vale para qualquer serviço: o exame de DNA-HPV por autocoleta vaginal detecta o vírus no colo do útero e na vagina. Ele não avalia a garganta, a boca nem a orofaringe, e nenhum exame disponível hoje no Brasil ou fora dele cumpre esse papel como rastreamento. Um resultado genital positivo também não é previsão de tumor de garganta. São sítios diferentes, com histórias naturais diferentes.


O que o rastreamento genital faz é outra coisa, e não é pouca: ele resolve o único câncer por HPV que a medicina hoje sabe pegar antes de virar câncer.


O caminho completo do DNA-HPV See Me


A See Me existe para tirar esse exame do lugar onde ele costuma ficar, que é a lista de coisas adiadas. Você faz a autocoleta em casa, no seu tempo, sem exposição e sem sala de espera. A amostra segue para análise laboratorial com genotipagem dos HPV de alto risco. O resultado volta com laudo interpretado por médica, em linguagem que você entende, e com o encaminhamento clínico correto para o seu caso, incluindo consulta quando o resultado pede conduta. O conjunto todo, do cotonete ao plano de ação, está em seeme.life.

Repare no que isso muda de lugar. O exame deixa de ser um evento que você agenda e passa a ser uma informação que você tem.


Câncer de garganta por HPV é sobre ele, e a conversa começa com você


O tumor de garganta ligado ao HPV cresce, atinge homens em proporção de cinco para um no Brasil, chega tarde ao diagnóstico e não tem rastreamento em nenhum país. A prevenção real que existe hoje tem duas frentes, e as duas são domésticas: vacinar meninos e meninas na idade certa, e manter em dia o único rastreamento de HPV que a medicina validou, o do colo do útero.


Se você é a pessoa da casa que lembra de exame, e estatisticamente você é, essa informação vale para duas pessoas. Você faz o seu DNA-HPV. Ele confere a caderneta de vacinação dos filhos e a dele.


FAQ


O exame de DNA-HPV detecta HPV na garganta?

Não. O exame de DNA-HPV por autocoleta vaginal detecta o vírus no colo do útero e na vagina, que é onde ele tem valor comprovado de rastreamento. Não existe hoje, no Brasil ou em qualquer outro país, um teste de HPV oral validado como exame de rastreamento de câncer de garganta.


Quais são os sinais de alerta do câncer de orofaringe?

Os mais descritos são dor de garganta persistente por mais de três semanas, caroço no pescoço que não some, dificuldade ou dor ao engolir, rouquidão prolongada, dor de ouvido de um lado só sem infecção e sangramento na boca ou na garganta. Nenhum desses sintomas fecha diagnóstico, e todos têm causas muito mais comuns e benignas. O que eles significam é uma coisa só: procurar avaliação médica em vez de esperar passar.


Quem faz sexo oral tem mais risco de câncer de garganta?

O número de parceiros ao longo da vida, incluindo parceiros de sexo oral, é um dos fatores de risco associados à infecção oral por HPV descritos na literatura, junto com sexo masculino, idade mais avançada, tabagismo e infecção genital concomitante. Fator de risco não é destino: a maioria das infecções orais por HPV é transitória e eliminada pelo próprio organismo, e apenas uma fração muito pequena das pessoas infectadas desenvolve câncer.


Homem pode fazer exame de HPV?

Não há exame de HPV recomendado como rastreamento de rotina para homens em nenhum sítio anatômico, porque não se demonstrou benefício em reduzir mortalidade. Para eles, o que a evidência sustenta hoje é vacinação na idade indicada e avaliação médica diante de lesão ou sintoma persistente.


Adulto ainda pode se vacinar contra o HPV?

O calendário do SUS prioriza crianças e adolescentes de 9 a 14 anos em dose única, e existem grupos especiais e janelas de resgate vacinal que mudam por portaria. As faixas de repescagem são revisadas com frequência, a orientação correta é consultar a unidade básica de saúde sobre as regras vigentes no momento ou ficar de olho das redes sociais da See Me.


O câncer de garganta por HPV ainda não tem exame de rastreamento. O do colo do útero tem, e ele agora é molecular. Faça o seu DNA-HPV em casa, com autocoleta, laudo interpretado por médica e encaminhamento clínico: conheça o DNA-HPV See Me.

Leia também


Referências Bibliográficas

1. Van Dyne EA, Henley SJ, Saraiya M, Thomas CC, Markowitz LE, Benard VB. Trends in Human Papillomavirus-Associated Cancers, United States, 1999-2015. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2018;67(33):918-924.

2. Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO). Levantamento sobre mortalidade por tumores de cabeça e pescoço no Brasil, 2020 a 2024, com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Julho de 2026.

3. Reis RS, Lima FCS, Silva DHN, et al. Infecção por HPV e Controle do Câncer no Brasil: O Importante Papel da Vacinação. Revista Brasileira de Cancerologia. 2025;71(1):e-164928.

4. Fonsêca TC, Jural LA, Marañón-Vásquez GA, et al. Global prevalence of human papillomavirus-related oral and oropharyngeal squamous cell carcinomas: a systematic review and meta-analysis. Clinical Oral Investigations. 2023;28(1):62.

5. Maltseva M, Klasen C, Wuerdemann N, Hannich M, Klussmann JP, Wieland U. Detection and natural history of HPV infection of oral cavity and tonsils: a systematic literature review. BMC Cancer. 2025;25(1):1405.

6. Douyat LM, Spencer A. The effectiveness of gender-neutral HPV vaccination programmes in preventing HPV-associated oral cancers: a systematic review. BMC Cancer. 2026;26(1).

7. National Cancer Institute. Oral Cavity and Nasopharyngeal Cancers Screening (PDQ), Patient Version.

8. U.S. Preventive Services Task Force. Oral Cancer: Screening. Final Recommendation Statement, nota I. 2013.

9. Ministério da Saúde. Brasil avança na vacinação contra HPV e supera média global. Agosto de 2025.

10. INCA. Aprovadas as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, Parte I. 18 de agosto de 2025. Cientificamente escrito por Stephani Caser, médica (CRM-SP 194.359)

Revisado por Dr. Alexandre Luís, médico (CRM-SP 97.838)

Material educativo, não substitui consulta nem diagnóstico individual.

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